
Os leitores hão de lembrar de seu texto leve, impregnado de emoção e poesia, das histórias de vida que eternizou nas páginas da revista, de personagens inesquecíveis como Seu Cutuba (Falou fubá, falou Cutuba); Zé Bagunça, o caixeiro-viajante; Bernardino, 'o rei do pinhão', que andava por aí plantando pinhões; os tropeiros João, José, Joaquim e Mestre Ditinho ('O dia em que o tempo parou') e o inventor Guerzoni Lopes ('Na mosca, Maiakóvski'). Sula era paulistana de nascimento mas foi registrada em Paraisópolis, sul de Minas Gerais, onde o pai, português, era hoteleiro e queria, de toda forma, que a filha fosse mineira. Aos 17 anos, mudou-se para São Paulo, onde se formou jornalista. Por muitos anos, trabalhou em jornais e revistas da capital e de São José dos Campos. Então, num belo dia, voltou de vez a Paraisópolis e fundou a Folha da Serra, jornal combativo, que marcou época na região. Em 2002, passou a escrever para nós, a convite do fotógrafo Ernesto de Souza, com quem trabalhara no jornal Agora, em São José dos Campos.
'O forte de Suely era sua sensibilidade. Era uma fotógrafa de almas e as descrevia numa linguagem mais literária que jornalística', diz o jornalista Roberto Wagner de Almeida, ex-colega no Agora. 'Sula era especial', resume Márcia Maria de Souza, amiga e companheira de tantos anos. 'Tudo que dizem dela é o que ela foi até os curtos e bem vividos 60 anos: a alegria, a luminosidade, o viço, a disponibilidade para o outro e uma curiosidade inesgotável para a vida.' A frase ao pé da página é parte de sua inesperada carta de despedida, escrita às vésperas da cirurgia a que se submeteu em abril. Nesta mesma carta, escreveu: '... me reservo o direito de escolher meu epitáfio (a frase destacada acima, da escritora francesa Marguerite Yourcenar): 'Todo aquele que viveu a aventura humana sou eu'.
'Gostaria, meus queridos, que vocês se lembrassem de mim como uma pessoa que amou a vida e a recebeu com tudo o que ela carrega de bom e de ruim. Tirei dela o que me foi possível e sinto que não a desperdicei' |
Suely Gonçalves Legenda da foto: A jornalista Suely Gonçalves (à esq.) e a escritora Adélia Prado, não por acaso, amigas: comunhão no afeto e na exaltação da vida Fonte: Revista Globo Rural |